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Alphonsus de Guimaraens: o solitário de Mariana

terça-feira, 24 de julho de 2012

Afonso Henrique da Costa Guimarães nasceu em 24 de julho de 1870, na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais. Toda sua vida esteve ligada a sua cidade natal e região, sendo conhecido como "Solitário de Mariana", e passando a assinar Alphonsus de Guimaraens, em 1894.


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[caption id="" align="aligncenter" width="180"] o poeta Alphonsus de Guimaraens[/caption]

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Um fato marcante em sua vida foi a perda prematura da prima e noiva Constança (uma das filhas de Bernardo Guimarães), vitimada pela tuberculose aos dezessete anos.  A morte de Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas. É comum encontrarmos em suas obras, várias citações sobre este fato. Como exemplo, podemos citar o soneto Hão de chorar por ela os cinamomos, onde encontra-se:


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As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.




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No Rio de Janeiro em 1895, conheceu Cruz e Sousa. Poeta do qual já admirava e tornou-se amigo pessoal. Posteriormente, no ano de 1899, estreou na literatura com dois volumes de versos: Setenário das dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente e Dona Mística, ambos de nítida inspiração simbolista. Em 1900 passou a exercer a função de jornalista colaborando em "A Gazeta", de São Paulo, ao mesmo tempo em que cursava a Faculdade de Direito. Em 1902 publicou Kyriale, esta obra o projetou no universo literário, obtendo assim um reconhecimento, ainda que restrito de alguns raros críticos e amigos mais próximos. Em 1903, teve seu cargo de juiz-substituto em Conceição do Serro suprimido, fato que o levou a graves dificuldades financeiras.


Após recusar um posto de destaque em "A Gazeta", Alphonsus de Guimaraens foi nomeado para a direção do jornal político de Conceição do Serro, onde também colaboraria seu irmão Archangelus de Guimaraens, Cruz e Souza e José Severino de Resende. Em 1906, tornou-se Juiz Municipal de Mariana (cidade vizinha a Ouro Preto) cargo que exerceria pelo resto de sua vida pacata.


Viveu seus últimos anos na obscuridade ao lado de sua esposa Zenaide de Oliveira, com quem teve 14 filhos. Ocasionalmente recebia a visita de poucos amigos e admiradores, até sua morte em 15 de Julho de 1921, na cidade de Mariana.


Alphonsus de Guimaraens foi essencialmente, um poeta místico de obra profundamente embasada na espiritualidade humana. A religiosidade que pautava vários autores de sua época, surgia em versos simples, pausados e intimistas de sua obra, porém, sempre sublimes e musicais. Em toda sua trajetória literária, é translúcido o sofrimento que pontuava sua existência, por vezes soava até mesmo como uma convenção poética. Mas sabe-se que nem o casamento, nem a vida pacata em Mariana, atenuava o sofrimento perene dado pela ausência de Constança.


Alphonsus de Guimaraens inseriu em suas poesias um certo tom mórbido e misterioso, onde a morte da mulher amada é um fator intimamente presente em suas estrofes. Pode-se encontrar com facilidade referências às cores roxa e negra, ao corpo morto, ao esquife etc. Essas características foram herdadas dos ultrarromânticos. Ainda quando compõe sobre a natureza, a arte e a religião, Alphonsus frequentemente insere citações mortuárias.


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Um dos poemas mais conhecidos de Alphonsus de Guimaraens é o poema Ismália:


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Ismália
                                                                                                                Fonte: Jornal de Poesia

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar. . .
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

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Na cidade natal de Alphonsus de Guimaraens, existe um museu que reúne o acervo do poeta, o Museu Casa Alphonsus de Guimaraens. Para conhecê-lo, clique aqui.


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Para conhecer os textos desse poeta, você pode fazer download no site do Domínio Público.


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[Slides #2] O Pré-Modernismo

sábado, 30 de junho de 2012

Querida turma 301!


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Esses são os slides utilizados na aula sobre Pré-Modernismo no Brasil. Deixo disponível para quem quiser fazer download do arquivo e utilizá-lo como material de consulta.


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[slideshare id=13505329&doc=prmodernismo-120630201638-phpapp02]


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Espero que façam bom proveito desses slides e que eles ajudem nos estudos, ok? Na próxima aula, analisaremos trechos das obras de alguns dos escritores mencionados.

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Beijinhos,


Ana Karina

Surrealismo: dimensões oníricas

domingo, 29 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="430" caption="A persistência da memória (1931), de Salvador Dalí."][/caption]

Surrealismo foi, cronologicamente, o último movimento da vanguarda europeia do início do século XX. Note como André Breton (1896 – 1966), autor do primeiro manifesto surrealista, definiu o movimento:



Surrealismo, s.m. Automatismo psíquico pelo qual alguém se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento.

"O Surrealismo não é um estilo. É o grito da mente que se volta para si mesma." Assim o ator e escritor Antonin Artaud definiu essa vanguarda.


Fortemente ligado às artes visuais, o Surrealismo é uma vanguarda interessada em adquirir um maior conhecimento do ser humano. Seus seguidores pretendem, por meio da valorização da fantasia, do sonho, do interesse pela loucura, liberar o inconsciente humano, terreno fértil e ainda muito pouco explorado.


O fascínio pelo inconsciente e por todas as formas que vão além da realidade objetiva aproxima os surrealistas da teoria psicanalítica de Sigmund Freud.



As bases da psicanálise: o modelo freudiano

[caption id="" align="aligncenter" width="411" caption="Sigmund Freud contribuiu para abalar as certezas ao identificar o inconsciente e seu impacto sobre os seres humanos. Foto de 1938."][/caption]

Freud propôs um modelo explicativo para a estrutura de nosso "sistema" psíquico. O comportamento humano é visto, nessa teoria, como o resultado da interação entre três partes: idegosuperego.


id seria o lado mais agressivo e animalesco, dominado pelos desejos de natureza sexual e livre das imposições culturais e sociais. O id leva a buscar sempre o prazer.


ego, domínio da percepção, do pensamento e do controle motor, é o encarregado de encontrar formas de alcançar a realização do desejo contido no id.


superego funciona como o censor do id. É nele que ficam guardadas as proibições, as regras socialmente impostas ao indivíduo.


De certa forma, o embate entre o id e o superego simboliza o confronto básico entre os desejos individuais (associados ao primeiro) e as regras coletivas (presentes no segundo). O ego é o árbitro desse embate.


Os surrealistas veem a teoria de Freud como sinal de que há muito a ser descoberto sobre o ser humano. Eles acreditam que a razão não é o melhor instrumento para essas descobertas, porque ela ignora nosso universo inconsciente. Por isso, as manifestações artísticas que produzem são um desafio evidente à organização racional do mundo.




[caption id="" align="aligncenter" width="544" caption="Obra de Vladimir Kush."][/caption]
A literatura surrealista

O grande nome da literatura surrealista é André Breton. Em 1924, ele publica em Paris o Manifesto do Surrealismo, em que define o espírito e os objetivos da nova vanguarda.


Na literatura, a liberação do inconsciente deve ser alcançada com o auxílio da escrita automática. No Manifesto, André Breton ensina como usar o automatismo para fazer emergir o inconsciente.




[...] Mandem trazer algo com que escrever, depois de se haverem estabelecido em um lugar tão favorável quanto possível à concentração do espírito sobre si mesmo. Ponham-se no estado mais passivo, ou receptivo que puderem. Façam abstração de seus gênios, de seus talentos e dos de todos os outros. Digam a si mesmos que a literatura é um dos: mais tristes caminhos que levam a tudo. Escrevam depressa, sem um assunto preconcebido, bastante depressa para não conterem e não serem tentados a reler. A primeira frase virá sozinha, tanto é verdade que a cada segundo é uma frase estrangeira ou estranha a nosso pensamento consciente que só pede para se exteriorizar.[...]


 


BRE TON, André. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed.  Petrópolis: Vozes, 1986.  p. 194. (Fragmento).



 


O resultado desse processo é sempre um texto em que as relações lógicas não servem de apoio para o leitor, porque as imagens criadas não encontram equivalente no mundo conhecido. Privado das bases racionais de análise, não resta ao leitor outra saída a não ser entregar-se ao universo de sonho proposto pelo texto.




[caption id="" align="aligncenter" width="386" caption="O som do amor (1914), de Giorgio de Chirico"][/caption]

No Brasil, o Surrealismo lança suas raízes na obra do modernista Murilo Mendes, que procura, em vários poemas, construir imagens que trazem à tona o misterioso inconsciente.




Aproximação do terror


                 I

Dos braços do poeta
Pende a ópera do mundo
(Tempo, cirurgião do mundo):

O abismo bate palmas,
A noite aponta o revólver.
Ouço a multidão, o coro do universo,
O trote das estrelas

Já nos subúrbios da caneta:
As rosas perderam a fala.
Entrega-se a morte a domicílio.


Dos braços...
Pende a ópera do mundo.

(apud Laís Correa de Araújo, Murilo Mendes, 2ªed., Petrópolis, Vozes,1 972, p. 132)











Se você quiser saber um pouco mais sobre o Surrealismo e sobre a obra de Vladimir Kush, acesse o blog da minha amiga Cláudia, o  Jardim dos Sonhos. Tem um post muito interessante lá!!

Dadaísmo: o mais radical dos movimentos de vanguarda

Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o romeno Tristan Tzara espanta o mundo com mais uma vanguarda: o Dadaísmo ou Dadá, a mais radical e a menos compreensível de todas as vanguardas.


O Dadá vem para abolir de vez a lógica, a organização, o olhar racional, dando à arte um caráter de espontaneidade total. A falta de sentido já é anunciada no nome escolhido para a vanguarda. Dizia Tzara que dada, palavra que encontrou casualmente num dicionário, pode significar: rabo de vaca santa, mãe; certamente; ama-de-leite. Mas acabou afirmando, no movimento dadaísta: DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA.






[caption id="" align="aligncenter" width="347" caption="Tristan Tzara"][/caption]



O principal problema de todas as manifestações artísticas está, segundo os dadaístas, em almejar algo impossível: explicar o ser humano. Em mais uma afirmação retumbante, Tzara decreta: "A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta."






[caption id="" align="aligncenter" width="344" caption="Marcel Duchamp, Roda de bicicleta. Réplica do original de 1913.
O trabalho de Duchamp consiste sobretudo no questionamento gerado: uma roda de bicileta é um objeto de arte? Por quê? Qual o trabalho do artista nesse caso, uma vez que a roda é um produto fabricado em série? Se isso for arte, o que não é arte?"][/caption]



Literatura: a negação de todos os princípios e relações


 

A falta de lógica e a espontaneidade alcançam na literatura sua expressão máxima. Em seu último manifesto, Tzara diz que o grande segredo da poesia é que "o pensamento se faz na boca". para orientar melhor seus seguidores, cria uma receita para fazer um poema dadaísta.





Receita de poema dadaísta

Pegue um jornal.


Pegue a tesoura.


Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.


Recorte o artigo.


Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.


Agite suavemente.


Tire em seguida cada pedaço um após o outro.


Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.


O poema se parecerá com você.


E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.


TZARA, Tristan. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 132. (Fragmento).





Embora muitas das propostas dadaístas pareçam infantis aos olhos contemporâneos, é preciso levar em consideração o momento em que surgiram. Em uma Europa caótica e em guerra, insistir na falta de lógica e na gratuidade dos acontecimentos talvez não fosse um absurdo, mas o espelho crítico de uma realidade incômoda.











Acesse o E-Dicionário de Termos Literários e o blog Dadaísmo para saber um pouco mais sobre esse movimento de vanguarda.

Expressionismo: a tradução das vivências humanas

Alemanha, 1910: uma nova vanguarda toma forma, apresentando-se como reação à estética impressionista de valorização sensorial. É o Expressionismo. Contemporâneo do Cubismo e do Futurismo, a base do Expressionismo é o resultado de um processo criativo que supõe a perda do controle consciente durante a produção da obra de arte. A realidade não deve mais ser percebida em planos distintos (físico, psíquico, etc.), mas sim transformada em expressão.


O movimento expressionista é bastante influenciado pela Primeira Guerra Mundial, e seus quadros ressaltam um lado obscuro da humanidade, retratando faces marcadas pela angústia e pelo medo. A mais conhecida tela expressionista é O grito, de Edvard Munch.




[caption id="" align="aligncenter" width="390" caption="O grito (1893), de Edvard Munch"][/caption]



Literatura expressionista


O único manifesto expressionista surge em 1918. Seu autor, Kasimir Edschmid, procura estabelecer os rumos que a nova visão impunha à literatura.

[...] o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura. Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a
cadeia de fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que o mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles. [...]


EDSCHMID,  Kasimir. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1986. p.111. (Fragmento).



Inspirados por essas palavras, os poetas expressionistas abordam, em suas obras, a derrocada do mundo burguês e capitalista, denunciando um universo em crise e a sensação de impotência do homem preso em um mundo "sem alma".


Temas como esses garantem aos textos expressionistas um forte caráter negativista, fazendo com que muitas vezes a representação do mundo se faça de forma grotesca e deformada.


A literatura expressionista cria também imagens distorcidas da realidade para traduzir as vivências humanas. Uma passagem do romance  Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, flagra o impacto da Floresta da Tijuca em Fräulein Elza. Contemplando o espetáculo magnífico da natureza brasileira, a alemã é tomada por sensações e impressões que alteram o modo como vê montanhas e árvores.




A luz delirava, apressada a um vago aviso da tarde. Era tal e tanta que embaçava de ouro a amplidão. Se via tudo de longe num halo que divinizava e afastava as coisas mais. Lassitude. No quiriri tecido de ruidinhos abafados, a cidade se movia pesada, lerda. O mar parava azul. [...]

Fräulein botara os braços cruzados no parapeito de pedra, fincara o mento aí, nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a pouco se fecharam, cega duma vez. A razão pouco a pouco escampou. Desapareceu por fim, escorraçada pela vida excessiva dos sentidos. Das partes profundas do ser lhe viam apelos vagos e decretos fracionados. Se misturavam animalidades e invenções geniais. [...] Adquirira enfim uma alma vegetal.

ANDRADE, Mário de.  Amar, verbo intransitivo. 18. ed. Belo Horizonte: Vila Rica, 1992. p. 120. (Fragmento)















Se você quer saber um pouco mais sobre o Expressionismo, acesse os blogs Arte Moderna FAV-UFG e Das Artes.

Cubismo: a multiplicação dos pontos de vista

sábado, 28 de abril de 2012

[caption id="attachment_617" align="aligncenter" width="384" caption="Les Demoiselles d'Avignon (As senhoras de Avignon - 1907), de Pablo Picasso"][/caption]

Em 1907, a exposição da tela  As senhoras de Avignon provoca comoção na cena artística parisiense.


O quadro revela um modo revolucionário de representar a realidade, rompendo com os conceitos tradicionais de harmonia, proporção, beleza e perspectiva. Com essa obra nasce a pintura cubista, e o seu criador, Pablo Picasso, será o grande mestre do Cubismo, que marcou a arte do século XX. Além dele, também se destacarão Georges Braque e Juan Gris.




[caption id="" align="aligncenter" width="298" caption="Pablo Picasso (1881 - 1973)"][/caption]

Os artistas desejam, agora, apresentar relações e não formas acabadas. Para enfatizar essas relações, propõem diferentes pontos de vista dos quais um determinado objeto pode ser observado. É por isso que essa vanguarda se define pela sobreposição de diferentes planos.


Com essa técnica, os cubistas pretendem forçar o observador a questionar a realidade, não aceitando uma interpretação única, linear.




[caption id="" align="aligncenter" width="288" caption="Violino e jarro (1909-10), de Georges Braque"][/caption]

Na literatura, uma das características do Cubismo é a preocupação com a disposição gráfica do poema: o espaço da folha passa a fazer parte da obra, assim como os tipos empregados na composição do texto. Por exemplo, veja o poema abaixo e sua tradução.




[caption id="" align="aligncenter" width="321" caption="Il pleut, de Guillaume Apollinaire"][/caption]

Tradução literal do poema Il pleut (Chove)


"Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação. Chovem também vocês maravilhosos encontros de minha vida ó gotinhas, e estas nuvens empinadas se põem a relinchar todo um universo de cidades minúsculas. Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma antiga música. Escuta caírem os laços que te retém embaixo e em cima."


(Tradução de Sérgio Capparelli. In: Tigres no quintal. Porto Alegre: Kuarup, 1997)


 Note que o poema de Apollinaire aproxima a poesia da pintura, ao reproduzir visualmente a queda da chuva. Nessa obra, rompe-se a noção de estrofe e verso.


No Brasil, a influência dessa vanguarda aparece na obra de diversos autores. Observe como ela está presente no poema a seguir,  de Oswald de Andrade:



hípica

Saltos records
cavalos da penha
correm jaquéis e higionopolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca chá
Na sala de cocktails

ANDRADE, Oswald  de. Poesias reunidas.   In: Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. v. 7, p. 129.



A composição do poema é claramente cubista. Para retratar o ambiente de uma corrida de cavalos na hípica, o eu lírico promove uma "sobreposição" de imagens que deslocam o olhar do leitor da pista, onde estão cavalos e jóqueis, para o público entretido pela orquestra. O resultado é uma imagem multifacetada, composta de fragmentos de diferentes planos da realidade.


Para saber um pouco mais sobre o Cubismo, acesse o site do MAC e o blog Arte Cubista.

Futurismo: uma literatura agressiva e provocadora

Os leitores do conservador jornal francês Le Figaro foram surpreendidos, no dia 20 de fevereiro de 1909, por um texto de Filippo Tommaso Marinetti:




[caption id="" align="aligncenter" width="337" caption="Filippo Marinetti"][/caption]

O Futurismo


[...] — Vamos, meus amigos! Disse eu. Partamos! Enfim, a Mitologia e o Ideal místico estão ultrapassados. Vamos assistir ao nascimento do Centauro e veremos logo voarem os primeiros Anjos! — É preciso abalar as portas da vida para nela experimentar os gonzos e os ferrolhos!... Partamos! Eis o primeiro sol nascendo sobre a terra!... Nada é igual ao esplendor de sua espada vermelha que se esgrima pela primeira vez nas nossas trevas milenares.


[...]


Com o rosto mascarado pela boa lama das usinas, cheio de escórias de metal, de suores inúteis e de fuligem celeste, levando nossos braços pisados na tipoia, entre o lamento dos sábios pescadores à linha e dos naturalistas angustiados, nós ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:


Manifesto do Futurismo


1 - Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.


2 - Os elementos essenciais da nossa poesias são a coragem, a audácia e a revolta.


3 - Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada o soco.


4 - Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo...um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.


[...]


7 - Não há beleza senão na luta. Nada de obra-prima sem um caráter agressivo. A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem. 8 - Nós que estamos sobre o promontório extremo dos séculos!... [...] O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, já que nós criamos a eterna velocidade onipresente.


9 - Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias que matam, e o menosprezo à mulher.


10 - Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.


11- Nós cantaremos as grandes multidões movimentadas pelo trabalho, pelo prazer e pela revolta; [...] os navios aventureiros farejando o horizonte; as locomotivas de grande peito, que escoucinham os trilhos, como enormes cavalos de aço freados por longos tubos, e o vôo deslizante dos aeroplanos, cuja hélice tem os estalos da bandeira e os aplausos da multidão entusiasta."


É na Itália que nós lançamos este manifesto de violência agitada e incendiária, pela qual fundamos hoje o Futurismo, porque queremos livrar a Itália de sua gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.



[caption id="" align="aligncenter" width="500" caption="O Manifesto Futurista, no jornal Le Figaro"][/caption]

O grande alvoroço causado pelo Futurismo se dá pela polêmica figura de Marinetti, que lança mais de 30 manifestos definindo diversos aspectos da nova vanguarda. Em todos, a proposta violenta de destruição total do passado; o fascínio pela guerra que promove a aniquilação dos símbolos do passado; a exaltação pelas formas do mundo moderno:  automóveis, aviões, em um eterno culto à velocidade que Marinetti, fascinado pelas novas tecnologias, vê como uma força mística.


Adotando uma perspectiva violenta, agressiva e iconoclasta, os futuristas exaltam "a bofetada e o soco" como meio de despertar o público para a passividade em que se encontra. A violência que destrói as certezas e os modelos obriga o leitor a reagir. O processo de recepção da nova arte passa a ser, assim, mais dinâmico e interativo.


Infelizmente, existe um lado sombrio do Futurismo: na Itália, com a chegada de Mussolini ao poder. O fascínio de Marinetti pela violência e pela guerra, aliado a um patriotismo exacerbado, faz com que transforme o movimento em uma espécie de porta-voz do regime fascista, a partir de 1919.




CARACTERÍSTICAS DO FUTURISMO


• Dinamicidade


• Aspectos mecânicos


• Velocidade abstrata


• Uso de elementos geométricos


• Esquemas sucessivos de representação do objeto pictórico, como exposição fotográfica múltipla.


• Movimentos animados pela fragmentação das figuras representadas, conforme o modernismo. (no final da fase fica próximo ao cubismo)





[caption id="" align="aligncenter" width="200" caption="Cartaz de propaganda de um sarau futurista"][/caption]

 

 

 Para saber um pouco mais sobre o Futurismo, clique aqui.

Vanguardas culturais europeias

sexta-feira, 27 de abril de 2012

No agitado cenário europeu do começo do século XX, a arte se renova em diferentes movimentos. Em comum, todos pretendem criar referências estéticas mais adequadas ao dinamismo dos novos tempos. A partir desse post, você saberá um pouco mais sobre a arte moderna e de que modo as vanguardas se relacionam com o contexto histórico do início do século XX.


Nas três primeiras décadas do século XX, o cenário artístico europeu vivia um momento de grande agitação. Diferentes movimentos artísticos, denominados vanguardas, surgiram para estabelecer novas referências para a pintura, a literatura, a música e a escultura.




[caption id="" align="aligncenter" width="548" caption="Carga de lanceiros (1914-15), de Umberto Boccioni"][/caption]

O novo século precisava criar as próprias referências estéticas. É nesse contexto histórico-cultural que nascem os vários "ismos": Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo e Surrealismo.


Praticamente todas as vanguardas lançaram manifestos. Esses manifestos eram textos que divulgavam as propostas das novas formas de expressão artística e definiam estratégias formais para alcançá-las.




[caption id="" align="aligncenter" width="350" caption=""Velocidade abstrata: o tempo passou", de Giacomo Balla"][/caption]

Cada uma das vanguardas que surgem no início do século XX apresenta um projeto próprio, mas todas elas têm uma intenção em comum: romper radicalmente com os princípios que orientavam a produção artística do século XIX. Podemos, então, resumir o projeto artístico das vanguardas como um movimento ousado que quer libertar a arte da necessidade de representar a realidade de modo figurativo e linear.


O desafio enfrentado pelos novos artistas é claro: encontrar uma nova linguagem capaz de expressar a ideia de velocidade, capturar a essência transformadora da eletricidade, o dinamismo dos automóveis. Por esse motivo, toda a produção artística de vanguarda terá um caráter de ruptura, de choque e de abertura. A ruptura se dá com os valores e princípios do passado; o choque, com as expectativas do público. A abertura é marcada pela busca de novos modos de olhar e interpretar a realidade em permanente estado de transformação.




[caption id="" align="aligncenter" width="424" caption="Les Demoiselles d'Avignon (1907), de Pablo Picasso"][/caption]

Para conhecer os movimentos culturais desse período, clique nos links abaixo:

Cubismo


Futurismo


Expressionismo


Dadaísmo


Surrealismo


Fonte:  ABAURRE, Maria Luiza M., ABAURRE, Maria Bernadete M., PONTARA, Marcela. Português: contexto, interlocução e sentido. São Paulo: Moderna, 2008.

Augusto dos Anjos: um poeta original

segunda-feira, 23 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="232" caption="Augusto dos Anjos (1884-1914)"][/caption]

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Engenho Pau d’Arco, atualmente município de Sapé, em 1884 na Paraíba. Foi educado inicialmente por seu pai e estudou no Liceu Paraibano, local em que viria a ser professor no ano de 1908.


Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907.


Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, local em que atuava como diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.



Augusto dos Anjos é considerado um poeta de transição, já que sua poesia não era moderna, mas também não tinha características simplesmente parnasianas ou simbolistas. Sua obra reflete a superação das velhas concepções poéticas e a procura de um novo caminho.


Ele utilizou, em sua poesia, o vocabulário das ciências biológicas para falar da morte, da decomposição da matéria, dos vermes, expressando uma visão trágica da existência.


Jogando admiravelmente com palavras estranhas e inusitadas em poesia, o que à primeira vista choca o leitor, Augusto dos Anjos conseguiu criar grandes efeitos rítmicos e sonoros, uma das causas da atração que sua obra exerce sobre nossa sensibilidade.


Sua obra poética está reunida no livro Eu (1912).




[caption id="" align="aligncenter" width="270" caption=""Eu e Outras poesias", de Augusto dos Anjos"][/caption]

Leia alguns poemas de Augusto dos Anjos:
Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Esse aqui eu AMO:



VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável! 


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera. 


Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

Para conhecer um pouco mais da obra do autor, acesse o perfil dele no Jornal de Poesia.

Boa leitura!!!

Vicente de Carvalho: o poeta do mar

quinta-feira, 5 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="225" caption="Vicente Augusto de Carvalho, poeta brasileiro"][/caption]

Vicente de Carvalho foi advogado, jornalista, político, magistrado, poeta e contista, nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866, e faleceu em Santos, SP, em 22 de abril de 1924. Ele é conhecido na literatura pela sua poesia lírica e porque se ligou desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana.


Estreou, ainda estudante, com poemas românticos de Ardentias e Relicário. Mesmo ingressando nas fileiras do Parnasianismo, jamais renegou os sentimentos líricos iniciais, assumindo uma posição independente frente às tendências formalistas. Convivendo também com o Simbolismo, dele absorveu certa fluidez, melancolia e profunda emotividade, sobretudo frente à natureza e, em especial, ao mar. A vista do mar e das paisagens praianas, sempre em consonância com os estados d'alma, constitui tema constante de sua obra.




Cantigas praianas


I


Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

Voz de uma prece

Morrendo no ar?

          Beijando a areia, batendo as fráguas,


          Choram as ondas; choram em vão:


          O inútil choro das tristes águas


          Enche de mágoas


          A solidão...


Duvidas que haja clamor no mundo

Mais vão, mais triste que esse clamor?

Ouve que vozes de moribundo

Sobem do fundo

Do meu amor.

(In Poesia. Rio de Janeiro, Agir, 1965. p. 32.)



Com Poemas e Canções, este traço de poeta da natureza fica muito bem marcado, como diz o prefácio que Euclides da Cunha fez para o livro: a visão viva do oceano, da mata e da montanha; o encontro pela beleza da mulher fazem de Vicente de Carvalho um poeta rico em imagens da natureza e em ressonâncias psicológicas. Um poeta que soube fundir o sensorial e o emotivo, fazendo nascer daí uma linguagem nova.




PALAVRAS AO MAR


Mar, belo mar selvagem

Das nossas praias solitárias! Tigre

A que as brisas da terra o sono embalam,

A que o vento do largo eriça o pêlo!

Junto da espuma com que as praias bordas,

Pelo marulho acalentada, à sombra

Das palmeiras que arfando se debruçam

Na beirada das ondas - a minha alma

Abriu-se para a vida como se abre

A flor da murta para o sol do estio.

________________________________________

Ó velho condenado

Ao cárcere das rochas que te cingem!

Em vão levantas para o céu distante

Os borrifos das ondas desgrenhadas.

Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,

Palpitante de estrelas quando é noite,

Paira, longínquo e indiferente, acima

Da tua solidão, dos teus clamores...

________________________________________

Ninguém entenda, embora,

Esse vago clamor, marulho ou versos,

Que sai da tua solidão nas praias,

Que sai da minha solidão na vida...

Que importa? Vibre no ar, acode os ecos

E embale-nos a nós que o murmuramos...

Versos, marulho! Amargos confidentes

Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

(In Literatura I. São Paulo, CERED, 1987. p. 122.)



O poeta é o segundo ocupante da Cadeira 29, eleito em 1º de maio de 1909, na sucessão de Artur Azevedo e recebido por carta na sessão de 7 de maio de 1910.


Obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" (1909); Páginas soltas (1911); A voz dos sinos (1916); Luizinha, contos (1924); discursos e obras políticas e jurídicas.


Para acessar o perfil do autor no site da Academia Brasileira de Letras, clique aqui.

Anne Frank e seu diário

sábado, 31 de março de 2012

Hoje completa 67 anos que Anne Frank morreu e eu não poderia deixar de comentar sobre a sua vida e sobre o seu diário aqui no blog Da Literatura, devido à sua história comovente e aos elogios dados à escrita de seu diário.




[caption id="" align="aligncenter" width="300" caption="Anne Frank"][/caption]

Anne Frank foi uma entre o total de 1 milhão de crianças judias assassinadas durante o Holocausto. Seu nome completo era Annelies Marie Frank, nascida a 12 de junho de 1929, em Frankfurt, Alemanha, filha de Otto e Edith Frank.


Nos primeiros cinco anos de vida Anne morou com seus pais, e sua irmã mais velha Margot, em um apartamento localizado nos arredores de Frankfurt. Depois que os nazistas subiram ao poder, em 1933, Otto Frank fugiu para Amsterdã, na Holanda, onde tinha alguns contatos profissionais. O restante da família seguiu Otto, sendo Anne a última a chegar, em fevereiro de 1934, depois de haver permanecido por um breve período com seus avós na cidade de Aachen.


Os alemães ocuparam Amsterdã em maio de 1940. Em julho de 1942, as autoridades alemãs e seus colaboradores holandeses começaram a concentrar judeus de todo o território holandês em Westerbork, um campo de trânsito próximo à cidade holandesa de Assen, não muito distante da fronteira com a Alemanha, de onde os deportaram para os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau e Sobibór, na Polônia, então ocupada pelos alemães.


Durante a primeira semana de julho, Anne e sua família esconderam-se em um apartamento, aonde posteriormente outros quatro judeus holandeses ficaram. Por dois anos viveram no sótão de um prédio que ficava atrás do escritório da família, na Rua Prinsengracht, 263, ao qual Anne se referia em seu diário como o “Anexo Secreto”. Johannes Kleiman, Victor Kugler, Jan Gies e Miep Gies, amigos de Otto Frank, haviam preparado o esconderijo e passaram a contrabandear alimentos e roupas para a família escondida, mesmo correndo sérios riscos. Em 4 de agosto de 1944, a Gestapo, Polícia Secreta alemã, descobriu o esconderijo após receber uma denúncia anônima.


No mesmo dia, o oficial da Gestapo sargento Karl Silberbauer e dois colaboradores da polícia holandesa prenderam a família Frank; a Gestapo os enviou para Westerbork no dia 8 de agosto. Um mês depois, em setembro de 1944, as SS e as autoridades policiais colocaram a família, e todos os que com ela estavam no esconderijo, em um trem de carga que ia de Westbrock para Auschwitz, um conjunto de campos de concentração na Polônia ocupada pela Alemanha. Devido à sua juventude e capacidade de serviço, no final de outubro de 1944, Anne e sua irmã Margot foram transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, próximo à cidade de Celle, no norte da Alemanha, para trabalharem como escravas.


Ambas morreram de tifo em março de 1945, poucas semanas antes das tropas inglesas liberarem Bergen-Belsen, no dia 15 de abril de 1945. Os pais de Anne também foram selecionados para o trabalho escravo pelas autoridades das SS. A mãe de Anne, Edith, morreu em Auschwitz no início de janeiro de 1945. Somente seu pai, Otto, sobreviveu à guerra. As forças soviéticas liberaram Otto em Auschwitz, no dia 27 de janeiro de 1945. Ao ser libertado, soube que a esposa havia morrido e que as filhas haviam sido transferidas para Bergen-Belsen. Ele ainda tinha esperança de reencontrar as filhas vivas. Em julho de 1945, a Cruz Vermelha confirmou as mortes de Anne e Margot.


O diário




[caption id="" align="aligncenter" width="486" caption="O diário aberto"][/caption]

Durante o tempo em que ficou escondida, Anne manteve um diário no qual registrava seus medos, esperanças e experiências. Miep Gies, uma das pessoas que havia ajudado a família a se esconder, encontrou o diário depois que Anne foi presa e o guardou para entregar a ela posteriormente, mas Anne nunca retornou, já que havia sido assassinada pela brutalidade nazista contra os judeus. Foi então que Miep Gies entregou para o pai de Anne, Otto Frank. Otto mostrou o diário à historiadora Annie Romein-Verschoor, que tentou sem sucesso publicá-lo. Ela o mostrou ao marido, o jornalista Jan Romein, que escreveu um texto sobre o diário de Anne. O diário foi finalmente publicado pela primeira vez em 1947.


O livro foi traduzido para diversas línguas com mais de 30 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro. Ele é usado em milhares de escolas europeias e norte-americanas e se tornou o símbolo da perda do potencial de todas as crianças que morreram no Holocausto. O livro que começou como um simples diário de adolescente transformou-se num comovente testemunho do terror nazista.


Fonte: Enciclopédia do Holocausto


Para saber um pouco mais sobre Anne Frank, acesse o site do Anne Frank Museum Amsterdam (em inglês).

[caption id="" align="aligncenter" width="262" caption="O diário de Anne Frank"][/caption]