Mostrando postagens com marcador poeta brasileiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poeta brasileiro. Mostrar todas as postagens

Alphonsus de Guimaraens: o solitário de Mariana

terça-feira, 24 de julho de 2012

Afonso Henrique da Costa Guimarães nasceu em 24 de julho de 1870, na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais. Toda sua vida esteve ligada a sua cidade natal e região, sendo conhecido como "Solitário de Mariana", e passando a assinar Alphonsus de Guimaraens, em 1894.


.




[caption id="" align="aligncenter" width="180"] o poeta Alphonsus de Guimaraens[/caption]

.

Um fato marcante em sua vida foi a perda prematura da prima e noiva Constança (uma das filhas de Bernardo Guimarães), vitimada pela tuberculose aos dezessete anos.  A morte de Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas. É comum encontrarmos em suas obras, várias citações sobre este fato. Como exemplo, podemos citar o soneto Hão de chorar por ela os cinamomos, onde encontra-se:


,




As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.




;


No Rio de Janeiro em 1895, conheceu Cruz e Sousa. Poeta do qual já admirava e tornou-se amigo pessoal. Posteriormente, no ano de 1899, estreou na literatura com dois volumes de versos: Setenário das dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente e Dona Mística, ambos de nítida inspiração simbolista. Em 1900 passou a exercer a função de jornalista colaborando em "A Gazeta", de São Paulo, ao mesmo tempo em que cursava a Faculdade de Direito. Em 1902 publicou Kyriale, esta obra o projetou no universo literário, obtendo assim um reconhecimento, ainda que restrito de alguns raros críticos e amigos mais próximos. Em 1903, teve seu cargo de juiz-substituto em Conceição do Serro suprimido, fato que o levou a graves dificuldades financeiras.


Após recusar um posto de destaque em "A Gazeta", Alphonsus de Guimaraens foi nomeado para a direção do jornal político de Conceição do Serro, onde também colaboraria seu irmão Archangelus de Guimaraens, Cruz e Souza e José Severino de Resende. Em 1906, tornou-se Juiz Municipal de Mariana (cidade vizinha a Ouro Preto) cargo que exerceria pelo resto de sua vida pacata.


Viveu seus últimos anos na obscuridade ao lado de sua esposa Zenaide de Oliveira, com quem teve 14 filhos. Ocasionalmente recebia a visita de poucos amigos e admiradores, até sua morte em 15 de Julho de 1921, na cidade de Mariana.


Alphonsus de Guimaraens foi essencialmente, um poeta místico de obra profundamente embasada na espiritualidade humana. A religiosidade que pautava vários autores de sua época, surgia em versos simples, pausados e intimistas de sua obra, porém, sempre sublimes e musicais. Em toda sua trajetória literária, é translúcido o sofrimento que pontuava sua existência, por vezes soava até mesmo como uma convenção poética. Mas sabe-se que nem o casamento, nem a vida pacata em Mariana, atenuava o sofrimento perene dado pela ausência de Constança.


Alphonsus de Guimaraens inseriu em suas poesias um certo tom mórbido e misterioso, onde a morte da mulher amada é um fator intimamente presente em suas estrofes. Pode-se encontrar com facilidade referências às cores roxa e negra, ao corpo morto, ao esquife etc. Essas características foram herdadas dos ultrarromânticos. Ainda quando compõe sobre a natureza, a arte e a religião, Alphonsus frequentemente insere citações mortuárias.


.


Um dos poemas mais conhecidos de Alphonsus de Guimaraens é o poema Ismália:


.



Ismália
                                                                                                                Fonte: Jornal de Poesia

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar. . .
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

.

.


.

.

Na cidade natal de Alphonsus de Guimaraens, existe um museu que reúne o acervo do poeta, o Museu Casa Alphonsus de Guimaraens. Para conhecê-lo, clique aqui.


.

Para conhecer os textos desse poeta, você pode fazer download no site do Domínio Público.


.

Basílio da Gama e O Uraguai

domingo, 22 de julho de 2012

 Hoje comemora-se o aniversário de 272 anos de um importante escritor brasileiro: Basílio da Gama. Conhecido poeta árcade brasileiro, Basílio da Gama é autor de um também conhecido poema épico: O Uraguai.


,




[caption id="" align="aligncenter" width="157"] Basílio da Gama (1740 - 1795)[/caption]

,

,

José Basílio da Gama nasceu no dia 22 de julho de 1740 em São José do Rio das Mortes, atual cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. Era filho de Manuel da Costa Vilas-Boas, fazendeiro abastado, e de Quitéria Inácia da Gama. Seu pai morreu no início de sua infância, acarretando diversas situações difíceis para a família. Assim, foi necessária a presença de um protetor, o brigadeiro Alpoim, que ficou responsável pela ida do autor para o Rio de Janeiro e o ingresso no colégio dos jesuítas, onde faria o noviciado para professar na Companhia de Jesus.


Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, os que não eram professos podiam voltar à vida secular, pela qual optou Basílio da Gama, que prosseguiu seus estudos, provavelmente no Seminário São José.


Viajou depois pela Itália e Portugal, de 1760 a 67. Em Roma, foi recebido na Arcádia Romana sob o nome de Termindo Sipílio, com a proteção dos jesuítas, que teriam emendado os versos acadêmicos do poeta principiante e sem nenhuma produção de vulto.


Em 30 de junho de 1768, estava de viagem para Lisboa, a bordo da nau Senhora da Penha de França, com o objetivo de matricular-se na Universidade de Coimbra. Lá chegando, foi preso e condenado ao degredo para Angola, como suspeito de ser partidário dos jesuítas. Do desterro a que estava sentenciado salvou-o o Epitalâmio que escreveu às núpcias de D. Maria Amália, filha de Pombal. Este simpatizou com o poeta, perdoou-o e, depois de lhe conceder carta de nobreza e fidalguia, deu-lhe o lugar de oficial da Secretaria do Reino. Basílio identificou-se, desde então, com a política pombalina. Para conciliar as graças de Pombal, compôs o Uraguai, publicado em 1769 na Régia Oficina Tipográfica, de Lisboa. A queda de Pombal, em 1777, não lhe alterou a posição burocrática.


Ao final de sua vida, foi admitido na Academia das Ciências de Lisboa e publicou o poema Quitúbia (1791) e, ainda, traduções e alguns versos de circunstância.


Faleceu em Lisboa, Portugal, em 31 de julho de 1795.


É o patrono da Cadeira n. 4 da Academia Brasileira de Letras.


.


Obras: Epitalâmio às núpcias da Sra. D. Maria Amália e O Uraguai (1769); A declamação trágica (1772), poema dedicado às belas artes; Os Campos Elíseos (1776); Relação abreviada da República e Lenitivo da saudade (1788); Quitúbia (1791); A declamação trágica (1820).


.


.



O Uraguai (1769)


.



.

.

O Uraguai  é um poema épico escrito em versos decassílabos brancos. (Versos decassílabos = 10 sílabas poéticas. Versos Brancos = versos que não possuem rimas). O texto trata da expedição de portugueses e espanhóis contra as missões jesuíticas do Rio Grande, para executar as cláusulas do Tratado de Madri em 1750. Pelo tratado, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses.


Basílio da Gama também possuía o objetivo de descrever o conflito entre o ordenamento racional da Europa e o primitivismo do índio. O escritor mostra simpatia pelo índio vencido enquanto transfere o ataque aos jesuítas.


O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, valorizando os feitos do General Gomes Freire de Andrade e exaltando o Marquês do Pombal.


.


.



A morte de Lindóia


.

[caption id="" align="aligncenter" width="560"] Lindóia (1882), de José Maria de Medeiros[/caption]

.

.

Um dos episódios mais líricos da Literatura Brasileira, a morte de Lindóia é um texto que trabalho bastante em sala de aula. É o momento em que a índia Lindóia prefere morrer a casar-se com o inimigo, deixando-se picar por uma serpente.


.


Os índios já haviam perdido a guerra e, reunidos na tribo, preparavam-se para a cerimônia de casamento de Lindóia com Baldeta (filho sacrílego do jesuíta Balda), que tem garantido o papel de chefe da tribo. Lindóia, contudo, não está interessada no casamento. Inconformada com a morte de seu marido Cacambo, ela se retira da tribo, desgostosa, e entra na floresta. Seu irmão Caitutu e outros índios vão procurá-la.


.
Entram enfim na mais remota e interna

Parte de antigo bosque, escuro e negro,

Onde ao pé de uma lapa cavernosa

Cobre uma rouca fonte, que murmura,

Curva latada de jasmins e rosas.

Este lugar delicioso, e triste,

Cansada de viver, tinha escolhido

Para morrer a mísera Lindóia.

Lá reclinada, como que dormia,

Na branda relva, e nas mimosas flores,

Tinha a face na mão, e a mão no tronco

De um fúnebre cipreste, que espalhava

Melancólica sombra. Mais de perto

Descobrem que se enrola no seu corpo

Verde serpente, e lhe passeia, e cinge

Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.

Fogem de a ver assim sobressaltados,

E param cheios de temor ao longe;

E nem se atrevem a chamá-la, e temem

Que desperte assustada, e irrite o monstro,

E fuja, e apresse no fugir a morte.

Porém o destro Caitutu, que treme

Do perigo da irmã, sem mais demora

Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes

Soltar o tiro, e vacilou três vezes

Entre a ira e o temor. Enfim sacode

O arco, e faz voar a aguda seta,

Que toca o peito de Lindóia, e fere

A serpente na testa, e a boca, e os dentes

Deixou cravados no vizinho tronco.

Açouta o campo co'a ligeira cauda

O irado monstro, e em tortuosos giros

Se enrosca no cipreste, e verte envolto

Em negro sangue o lívido veneno.

Leva nos braços a infeliz Lindóia

O desgraçado irmão, que ao despertá-la

Conhece, com que dor! no frio rosto

Os sinais do veneno, e vê ferido

Pelo dente sutil o brando peito.

Os olhos, em que Amor reinava, um dia,

Cheios de morte; e muda aquela língua,

Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes

Contou a larga história de seus males.

Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,

E rompe em profundíssimos suspiros,

Lendo na testa da fronteira gruta

De sua mão já trêmula gravado

O alheio crime, e a voluntária morte.

E por todas as partes repetido

O suspirado nome de Cacambo.

Inda conserva o pálido semblante

Um não sei quê de magoado, e triste,

Que os corações mais duros enternece.

Tanto era bela no seu rosto a morte!

Basílio da Gama Apud Moisés, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. 5. ed.


São Paulo, Cultrix, 1977. p. 94-95



.


.


Perfil do escritor no sítio da Academia Brasileira de Letras.


Obra de Basílio da Gama no sítio da Brasiliana Digital.


Para saber um pouco mais sobre Arcadismo Brasileiro, clique aqui.


.


.




Alguns apelidos de escritores famosos

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Como professora e estudante de Literatura, sempre gostei de não somente ler a obra, mas conhecer a vida de quem escreve. Confesso que me divirto com uma fofoquinha da vida literária, o que chamo carinhosamente de Caras da Literatura... E foi numa pesquisa pela internet que descobri um estudo feito pelo professor Claudio Cezar Henriques, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro sobre os apelidos de autores famosos e que culminou no Dicionário de Epítetos de Escritores da Literatura Brasileira. Fiquei muito curiosa para ler esse dicionário!


.




[caption id="" align="aligncenter" width="390"] Hilda Hilst (1930 - 2004), a Grande Personagem[/caption]

.


Conforme algumas resenhas que li, a lista de apelidos inclui desde os reconhecidos nos meios literários brasileiros, como Bruxo do Cosme Velho, para Machado de Assis, e Boca do Inferno, para Gregório de Matos Guerra. Além desses, existem os apelidos que são conhecidos apenas por um público restrito ou especializado como Grande Personagem, para Hilda Hist, e Paiaçu, para Padre Antônio Vieira. Encontram-se, também, os “auto-epítetos”, formas como os escritores chamavam a si mesmos em ambiente familiar ou entre amigos, como Urso Polar, para Carlos Drummond de Andrade, e Poeta Menor, para Manuel Bandeira. E, por último, as alcunhas irônicas que alguns escritores ou críticos atribuíam a outros como, por exemplo, Sapo-Boi, expressão dada por Manuel Bandeira para Olavo Bilac.


.



Alguns apelidos de escritores famosos:

.

[caption id="" align="aligncenter" width="390"] Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), o Urso Polar[/caption]

.


Alberto de Oliveira - Príncipe dos Poetas Brasileiros
Ana Cristina César - Escritora Maldita, Poeta Maldita
Aureliano Lessa - Bardo Fluminense
Bernardo Guimarães - Bardo Mineiro
Carlos Drummond de Andrade - Gauche, Urso Polar
Castro Alves - Poeta dos Escravos
Cruz e Sousa - Cisne Negro, Poeta Negro
Dalton Trevisan - Escritor Maldito, Escritor Misterioso
Filinto de Almeida - Fly
Glauco Mattoso - Poeta da Crueldade, Poeta Sinistro
Graciliano Ramos - Graça, Velho Graça
Gregorio de Matos Guerra - Boca do Inferno
Hilda Hilst- Grande Personagem
João Antonio - Escritor Maldito
João Cabral - Engenheiro das Palavras, Poeta Diplomata
Jorge Amado - Escritor Maldito
José de Alencar - Patriarca da Literatura Brasileira
José de Anchieta - Poeta Missionario
Ledo Ivo - Chulé de Apolo
Machado de Assis - Bruxo, Bruxo do Cosme Velho
Manuel Bandeira - Bardo, Poeta Menor
Mário de Andrade - Decano do Modernismo, Pai do Modernismo
Monteiro Lobato - Pai do Jeca Tatu
Nelson Rodrigues - Escritor Maldito
Olavo Bilac - Príncipe dos Poetas Brasileiros, Sapo-Boi
Oswald de Andrade - Calcanhar-de-Aquiles do Modernismo
Padre Antonio Vieira - Paiaçu (Pai Grande), Judas do Brasil
Raduan Nassar - Escritor Misterioso
Raquel de Queiroz - Rainha das Escritoras Brasileiras
Raul Bopp - Poeta Diplomata
Rui Barbosa - Águia de Haia
Vinicius De Moraes - Poeta Diplomata, Poetinha

 

HENRIQUES, Claudio Cezar. Apontamentos para um Dicionário de


Epítetos de Escritores da Literatura Brasileira. p. 371.



.

.

[caption id="" align="aligncenter" width="250"] Nelson Rodrigues (1912 - 1980), o Escritor Maldito[/caption]

.

 

E você, conhece algum apelido de escritor famoso que não esteja nessa lista???

.

 

[Slides #2] O Pré-Modernismo

sábado, 30 de junho de 2012

Querida turma 301!


.


Esses são os slides utilizados na aula sobre Pré-Modernismo no Brasil. Deixo disponível para quem quiser fazer download do arquivo e utilizá-lo como material de consulta.


.


.


[slideshare id=13505329&doc=prmodernismo-120630201638-phpapp02]


.

Espero que façam bom proveito desses slides e que eles ajudem nos estudos, ok? Na próxima aula, analisaremos trechos das obras de alguns dos escritores mencionados.

.

Beijinhos,


Ana Karina

Augusto dos Anjos: um poeta original

segunda-feira, 23 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="232" caption="Augusto dos Anjos (1884-1914)"][/caption]

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Engenho Pau d’Arco, atualmente município de Sapé, em 1884 na Paraíba. Foi educado inicialmente por seu pai e estudou no Liceu Paraibano, local em que viria a ser professor no ano de 1908.


Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907.


Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, local em que atuava como diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.



Augusto dos Anjos é considerado um poeta de transição, já que sua poesia não era moderna, mas também não tinha características simplesmente parnasianas ou simbolistas. Sua obra reflete a superação das velhas concepções poéticas e a procura de um novo caminho.


Ele utilizou, em sua poesia, o vocabulário das ciências biológicas para falar da morte, da decomposição da matéria, dos vermes, expressando uma visão trágica da existência.


Jogando admiravelmente com palavras estranhas e inusitadas em poesia, o que à primeira vista choca o leitor, Augusto dos Anjos conseguiu criar grandes efeitos rítmicos e sonoros, uma das causas da atração que sua obra exerce sobre nossa sensibilidade.


Sua obra poética está reunida no livro Eu (1912).




[caption id="" align="aligncenter" width="270" caption=""Eu e Outras poesias", de Augusto dos Anjos"][/caption]

Leia alguns poemas de Augusto dos Anjos:
Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Esse aqui eu AMO:



VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável! 


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera. 


Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

Para conhecer um pouco mais da obra do autor, acesse o perfil dele no Jornal de Poesia.

Boa leitura!!!

Gregório de Matos, o Boca do Inferno

sábado, 7 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="250" caption="Gregório de Matos Guerra"][/caption]

Gregório de Matos Guerra, advogado e poeta, nasceu na então capital do Brasil, Salvador, BA, em 7 de abril de 1623, numa época de grande efervescência social, e faleceu em Recife, PE, em 1696. Filho de família abastada e poderosa, estudou na Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito.


Em Portugal, foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia.


Gregório deixou uma obra poética riquíssima, no entanto, não foi publicado na época, sendo redescoberto no final do século XIX. Entre 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras publicou 6 volumes como a compilação de sua poesia.


Podemos apontar três temas básicos: poesia religiosa, poesia amorosa e poesia satírica.


Em suas poesias religiosas o poeta se ajoelha diante de Deus, pedindo perdão pelos pecados cometidos e promete não mais pecar. O soneto A Jesus Cristo, Nosso Senhor, o poeta apela para a infinita capacidade de perdão de Cristo, e alega que a ausência do perdão representaria o fim da glória divina.



A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,

Da vossa alta piedade me despido;

Antes, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.



A poesia amorosa de Gregório apresenta duas facetas distintas; a primeira é a do amor idealizado e dos afetos traduzidos por uma linguagem elevada, exemplo dessa perspectiva é o poema dedicado à D.Ângela, onde as palavras anjo e flor são usadas para designar a amada num constante jogo de aproximação.



À Dona Ângela

 

Anjo no nome, Angélica na cara,

Isso é ser flor, e Anjo juntamente,

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.



A segunda faceta é a poesia de amor obsceno-satírico, nas quais o poeta se utiliza de uma visão do amor físico, por meio de imagens grosseiras e chocantes, até porque o poeta usa uma infinidade de palavrões para descrever o ato e os órgãos sexuais, expressões machistas, e, sobretudo, um desprezo pelas mulheres, em especial negras e mulatas.



A poesia satírica de Gregório rendeu-lhe o apelido de Boca do Inferno, porque apresenta uma linguagem ferina e contundente, que não perdoa nenhum grupo social, onde ninguém escapa à sua ironia Os insultos do poeta à sociedade da época podem ser observados nos diversos poemas em que descreve a cidade da Bahia (Salvador) A truculência verbal de Gregório sempre rendeu-lhe inimizades e ódios, mas sua obra é considerada de extrema importância para a literatura brasileira.




Epílogos


I


Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

 

 

[caption id="" align="aligncenter" width="480" caption="A Bahia de Gregório de Matos - Salvador/BA - vista do Pelourinho"][/caption]

Foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social. Influenciado pelos mestres espanhóis da Época de Ouro – Góngora, Quevedo, Gracián, Calderón – sua poesia é a maior expressão do Barroco literário brasileiro, no lirismo. Ao seu tempo a imprensa estava oficialmente proibida. Suas poesias corriam em manuscritos, de mão em mão, e o Governador da Bahia D. João de Alencastre, que tanto admirava “as valentias desta musa”, coligia os versos de Gregório e os fazia transcrever em livros especiais. Ficaram também cópias feitas por admiradores, como Manuel Pereira Rabelo, biógrafo do poeta. Por isso é arriscado afirmar que toda a obra a ele atribuída seja realmente de sua autoria.


Para acessar o perfil do poeta no site da Academia Brasileira de Letras, clique aqui.


Leia alguns textos de Gregório de Matos no site do Jornal de Poesia.

Vicente de Carvalho: o poeta do mar

quinta-feira, 5 de abril de 2012

[caption id="" align="aligncenter" width="225" caption="Vicente Augusto de Carvalho, poeta brasileiro"][/caption]

Vicente de Carvalho foi advogado, jornalista, político, magistrado, poeta e contista, nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866, e faleceu em Santos, SP, em 22 de abril de 1924. Ele é conhecido na literatura pela sua poesia lírica e porque se ligou desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana.


Estreou, ainda estudante, com poemas românticos de Ardentias e Relicário. Mesmo ingressando nas fileiras do Parnasianismo, jamais renegou os sentimentos líricos iniciais, assumindo uma posição independente frente às tendências formalistas. Convivendo também com o Simbolismo, dele absorveu certa fluidez, melancolia e profunda emotividade, sobretudo frente à natureza e, em especial, ao mar. A vista do mar e das paisagens praianas, sempre em consonância com os estados d'alma, constitui tema constante de sua obra.




Cantigas praianas


I


Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

Voz de uma prece

Morrendo no ar?

          Beijando a areia, batendo as fráguas,


          Choram as ondas; choram em vão:


          O inútil choro das tristes águas


          Enche de mágoas


          A solidão...


Duvidas que haja clamor no mundo

Mais vão, mais triste que esse clamor?

Ouve que vozes de moribundo

Sobem do fundo

Do meu amor.

(In Poesia. Rio de Janeiro, Agir, 1965. p. 32.)



Com Poemas e Canções, este traço de poeta da natureza fica muito bem marcado, como diz o prefácio que Euclides da Cunha fez para o livro: a visão viva do oceano, da mata e da montanha; o encontro pela beleza da mulher fazem de Vicente de Carvalho um poeta rico em imagens da natureza e em ressonâncias psicológicas. Um poeta que soube fundir o sensorial e o emotivo, fazendo nascer daí uma linguagem nova.




PALAVRAS AO MAR


Mar, belo mar selvagem

Das nossas praias solitárias! Tigre

A que as brisas da terra o sono embalam,

A que o vento do largo eriça o pêlo!

Junto da espuma com que as praias bordas,

Pelo marulho acalentada, à sombra

Das palmeiras que arfando se debruçam

Na beirada das ondas - a minha alma

Abriu-se para a vida como se abre

A flor da murta para o sol do estio.

________________________________________

Ó velho condenado

Ao cárcere das rochas que te cingem!

Em vão levantas para o céu distante

Os borrifos das ondas desgrenhadas.

Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,

Palpitante de estrelas quando é noite,

Paira, longínquo e indiferente, acima

Da tua solidão, dos teus clamores...

________________________________________

Ninguém entenda, embora,

Esse vago clamor, marulho ou versos,

Que sai da tua solidão nas praias,

Que sai da minha solidão na vida...

Que importa? Vibre no ar, acode os ecos

E embale-nos a nós que o murmuramos...

Versos, marulho! Amargos confidentes

Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

(In Literatura I. São Paulo, CERED, 1987. p. 122.)



O poeta é o segundo ocupante da Cadeira 29, eleito em 1º de maio de 1909, na sucessão de Artur Azevedo e recebido por carta na sessão de 7 de maio de 1910.


Obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" (1909); Páginas soltas (1911); A voz dos sinos (1916); Luizinha, contos (1924); discursos e obras políticas e jurídicas.


Para acessar o perfil do autor no site da Academia Brasileira de Letras, clique aqui.