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Alphonsus de Guimaraens: o solitário de Mariana

terça-feira, 24 de julho de 2012

Afonso Henrique da Costa Guimarães nasceu em 24 de julho de 1870, na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais. Toda sua vida esteve ligada a sua cidade natal e região, sendo conhecido como "Solitário de Mariana", e passando a assinar Alphonsus de Guimaraens, em 1894.


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[caption id="" align="aligncenter" width="180"] o poeta Alphonsus de Guimaraens[/caption]

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Um fato marcante em sua vida foi a perda prematura da prima e noiva Constança (uma das filhas de Bernardo Guimarães), vitimada pela tuberculose aos dezessete anos.  A morte de Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas. É comum encontrarmos em suas obras, várias citações sobre este fato. Como exemplo, podemos citar o soneto Hão de chorar por ela os cinamomos, onde encontra-se:


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As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.




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No Rio de Janeiro em 1895, conheceu Cruz e Sousa. Poeta do qual já admirava e tornou-se amigo pessoal. Posteriormente, no ano de 1899, estreou na literatura com dois volumes de versos: Setenário das dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente e Dona Mística, ambos de nítida inspiração simbolista. Em 1900 passou a exercer a função de jornalista colaborando em "A Gazeta", de São Paulo, ao mesmo tempo em que cursava a Faculdade de Direito. Em 1902 publicou Kyriale, esta obra o projetou no universo literário, obtendo assim um reconhecimento, ainda que restrito de alguns raros críticos e amigos mais próximos. Em 1903, teve seu cargo de juiz-substituto em Conceição do Serro suprimido, fato que o levou a graves dificuldades financeiras.


Após recusar um posto de destaque em "A Gazeta", Alphonsus de Guimaraens foi nomeado para a direção do jornal político de Conceição do Serro, onde também colaboraria seu irmão Archangelus de Guimaraens, Cruz e Souza e José Severino de Resende. Em 1906, tornou-se Juiz Municipal de Mariana (cidade vizinha a Ouro Preto) cargo que exerceria pelo resto de sua vida pacata.


Viveu seus últimos anos na obscuridade ao lado de sua esposa Zenaide de Oliveira, com quem teve 14 filhos. Ocasionalmente recebia a visita de poucos amigos e admiradores, até sua morte em 15 de Julho de 1921, na cidade de Mariana.


Alphonsus de Guimaraens foi essencialmente, um poeta místico de obra profundamente embasada na espiritualidade humana. A religiosidade que pautava vários autores de sua época, surgia em versos simples, pausados e intimistas de sua obra, porém, sempre sublimes e musicais. Em toda sua trajetória literária, é translúcido o sofrimento que pontuava sua existência, por vezes soava até mesmo como uma convenção poética. Mas sabe-se que nem o casamento, nem a vida pacata em Mariana, atenuava o sofrimento perene dado pela ausência de Constança.


Alphonsus de Guimaraens inseriu em suas poesias um certo tom mórbido e misterioso, onde a morte da mulher amada é um fator intimamente presente em suas estrofes. Pode-se encontrar com facilidade referências às cores roxa e negra, ao corpo morto, ao esquife etc. Essas características foram herdadas dos ultrarromânticos. Ainda quando compõe sobre a natureza, a arte e a religião, Alphonsus frequentemente insere citações mortuárias.


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Um dos poemas mais conhecidos de Alphonsus de Guimaraens é o poema Ismália:


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Ismália
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Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar. . .
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

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Na cidade natal de Alphonsus de Guimaraens, existe um museu que reúne o acervo do poeta, o Museu Casa Alphonsus de Guimaraens. Para conhecê-lo, clique aqui.


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Para conhecer os textos desse poeta, você pode fazer download no site do Domínio Público.


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191 anos de Charles Baudelaire

sábado, 14 de abril de 2012

“Todo o homem saudável consegue ficar dois dias sem comer - sem a poesia, jamais.”


Charles Baudelaire




[caption id="" align="aligncenter" width="317" caption="Charles Baudelaire (1821 - 1867)"][/caption]

No dia 9 de abril, comemorou-se os 191 anos de nascimento do poeta francês Charles Baudelaire. Não poderíamos deixar de falar sobre esse grande artista que muito influenciou não só a poesia moderna como as artes do século XIX.


Baudelaire nasceu em Paris, em 1821. Órfão de pai aos seis anos, viria a odiar o segundo marido da mãe, o general Jacques Aupick (mais tarde, esse sentimento inspiraria sua atitude rebelde em face das convenções sociais e dos temas frívolos na poesia). Após anos de desavenças com o padrasto, Baudelaire interrompeu os estudos em Lyon para fazer uma viagem à Índia em 1840, mas nunca chegou ao destino. Vai até a ilha da Reunião e retorna a Paris. Atingindo a maioridade, ganhou posse da herança do pai.


Passou a frequentar a elite aristocrática. Envolveu-se com a atriz Marie Daubrun, a cortesã Apollonie Sabatier e a também atriz Jeanne Duval, uma mulata por quem se apaixonou e a quem dedicou o ciclo de poemas "Vênus Negra”. Em 1844 sua mãe entra na justiça, acusando-o de pródigo, e então sua fortuna torna-se controlada por um notário. Em 1847, lançou La Fanfarlo, seu único romance (trata-se, mais propriamente, de uma novela autobiográfica).


Dez anos depois, em 1857, quando se publicaram As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal), todos os envolvidos com o livro foram processados por obscenidade e blasfêmia. Além de pagarem multa, viram-se obrigados a retirar seis poemas do volume original (só publicado na integra em edições póstumas).




[caption id="" align="aligncenter" width="240" caption="As flores do mal (Les fleurs du Mal)"][/caption]

Tanto As Flores do Mal como Pequenos Poemas em Prosa (póstumos, 1869) introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo opostos existenciais como o sublime e o grotesco. Entre seus ensaios, destaca-se O Princípio Poético (1876), em que fixa as bases de seu trabalho. Nos diários (também publicados postumamente), revela-se profético e radical contestador da civilização moderna. Literato que avançou as fronteiras dos costumes em sua época, Baudelaire lançou-se como crítico de arte no Salão de 1845, sempre buscando um princípio inspirador e coerente nas obras artísticas. ("Salão" era o nome pelo qual se conhecia a mais importante mostra anual da pintura e da escultura francesas.) De 1852 a 1865, Baudelaire traduziu os textos do poeta e contista norte-americano Edgar Allan Poe, por quem se entusiasmara já no final da década de 1840. Outro Baudelaire, o sifilítico e usuário de drogas, surge em Os Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe (1860), uma especulação sobre plantas alucinógenas, parcialmente inspirada pelas Confissões de um Comedor de Ópio (1821), do escritor inglês Thomas de Quincey. Há também obras de cunho intimista e confessional, como Meu Coração Desnudo. Baudelaire foi um dos maiores poetas franceses de todos os tempos. Alguns o consideram um antecessor do parnasianismo, ou um romântico exacerbado. Pioneiro da linguagem moderna, impôs à realidade uma submissão lírica. Embora muito criticado, tinha entre seus admiradores homens como Victor Hugo, Gustave Flaubert, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.


Dissipou seus bens na boemia e na jogatina parisienses. Mergulhado em dívidas, teve de resignar-se a medidas judiciárias tomadas pelos familiares, e um tutor foi nomeado para controlar-lhe os gastos. Seus últimos anos foram obscurecidos por doenças de origem nervosa.


Após uma vida repleta de tribulações, Baudelaire morreu em 1867, com apenas 46 anos, nos braços da mãe. Seu talento e seu intelecto só seriam totalmente reconhecidos depois. No século 20, tornou-se um ícone, influenciando direta e indiretamente toda a moderna poesia ocidental.

[caption id="" align="aligncenter" width="288" caption="túmulo de Baudelaire, no Cemitério do Montparnasse, em Paris"][/caption]
O Vampiro

Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,


Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,


Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!


Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.


Ah! pobre! o veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.


Ah! imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!


In   "As flores do Mal"



E você, já conhecia a obra de Baudelaire?


Se quiser saber um pouco mais, acesse os sites Fleurs du Mal (em inglês), Pequenos poemas em prosa, Charles Baudelaire.info (em francês).


Boa leitura!


Ana Karina